ROUPAS QUE RETRATAM VIDAS

Há palavras que entraram em desuso, tecidos tão ultrapassados como as peças a que deram corpo, há vestidos que imaginamos com gente por dentro, há peças que nos levam ao teatro, aos campos da lezíria ribatejana, às sortes como um rapaz jovem ou a reuniões secretas como os políticos da época. O Cartaxo e o Traje no Virar do Séc. XIX, é uma viagem construída pela comunidade, ao centro da sua própria memória familiar. 

Aos 31 anos de idade, o Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, convidou a comunidade a tirar do baú as peças de roupa, os acessórios, as fotografias e os móveis que a revelassem na passagem do século. O resultado do desafio abriu ao público no passado sábado, dia 26 de novembro, numa inauguração da qual os visitantes pareciam ter dificuldade em “arredar pé”, parecendo cumprir o propósito enunciado por Helena Montez, coordenadora da área de Cultura do Município, que afirmou “queremos um Museu em que o visitante, pela construção de um verdadeiro sentimento de pertença, se transforma num habitante do espaço”.

Quem visitar a exposição O Cartaxo e o Traje no Virar do Séc. XIX, vai experimentar a sensação de quem visita familiares que habitam um outro tempo, não tão longínquo que não se possa entender, mas já tão afastado que não se pode viver. Palavras para tecidos como popelina, casquinha d’ovo ou cotim, ou para peças como corpete ou culotes, percebem-se, mas já causam estranheza.

A exposição retrata um tempo em que a roupa demorava a fazer, em que cada peça era única e valiosa, passava por mãos que aprendiam a arte desde pequenas e cujo saber punha o pão na mesa da família. A roupa humilde do trabalhador do campo ou os imaculados aventais das criadas de servir, em contraste com as peles, as penas e os vidrilhos dos fatos de cerimónia, revelam diferenças sociais e mostram como era impossível andar nas ruas do Cartaxo, sem se saber que lugar cada um ocupava na sociedade da época.

Das fotografias a preto e branco e a sépia, espreitam pessoas, muitas mulheres, algumas famílias, testemunhas dos trabalhos no campo, dos momentos de convívio e das datas especiais – daquelas que marcam a vida. Em todas, a roupa ajuda a perceber quem eram aquelas pessoas, como viviam e se relacionavam. A exposição mostra ainda espaços da casa, aqui usados como palco para as roupas de cama ou os atoalhados, mas também para mostrar as peças mais íntimas, delicadas e guardadas com esmero ao longo de gerações, as meias de renda trabalhadas a cinco agulhas ou os lençóis que demoraram meses a bordar.

Inauguração contou com participação de entidades públicas e privadas a par de famílias e pessoas do concelho que cederam as peças da exposição

Helena Montez revelou que “a resposta da população ao repto do Município foi tão positiva, até contagiante pelo entusiamo e disponibilidade para ceder as peças e participar na sua organização, que ultrapassou em muito as nossas melhores expectativas”.

 Para o presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, Pedro Magalhães Ribeiro, o facto de a exposição ter sido uma “construção conjunta dos nossos trabalhadores com a população, afirma a forte ligação deste espaço museológico à comunidade”. Para o autarca o Museu deve ser “espaço de partilha e criação de conhecimento, essencial à preservação da nossa identidade. A ignorância sobre o valor do património tem levado, quase sempre, à sua perda e é o nosso património, quer material, quer imaterial, que nos torna diferentes e competitivos, num mundo cada vez mais igual”.

 Pedro Magalhães Ribeiro agradeceu a todos os que se envolveram, “quer cedendo peças que têm tanto valor pessoal e são parte da história de cada família, quer participando na montagem da exposição”, certo de que este foi também o espírito daqueles que “construíram este Museu, entre os quais destaco uma das suas grandes impulsionadoras, Maria José Campos, a par de todos aqueles que ao longo dos anos têm dedicado estudo e trabalho à sua afirmação enquanto espaço museológico de referência na região e no país”.

 A encerrar a inauguração, Alessandra Scharff, aluna de piano da professora Ana Sofia Antunes, cujas aulas integram o Atelier de Música do Serviço Educativo do Museu, apresentou duas peças que mostram o trabalho desenvolvido no Atelier – Writing Poems, de Ludovico Einaudi e The Amazing Short de Yann Thiersen.

A exposição pode ser visitada até ao próximo dia 29 de janeiro de 2017.

Entrada Livre – de terça a domingo das 9H30 às 12H30 e das 14H30 às 17H30

INFO (+351) 243 701 257 • museu@cm-cartaxo.pt

 

 

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