Utopia no IVV
Bem longe de ser utópico, esteve em cena entre 5 e 7 de junho, o quarto espetáculo da Society, jovem escola de dança e teatro de Almeirim.
Utopia, de seu nome, mais do que uma referência ao substantivo, é uma homenagem à Mulher, ao seu papel na(s) sociedade(s), às suas lutas, à sua afirmação num universo claramente patriarcal e deveras violento.
Dirigido por Carolina Moreira (professora de Dança Contemporânea) e coreografado também por Carolina em parceria com Fátima Peralta, o espetáculo de dança envolve os bailarinos da escola, das mais diversas idades e níveis de formação.
Para além do virtuosismo na direção e coreografia de Carolina Moreira, destacar a “parceira” Fátima Peralta na(s) coreografia(s) que, para além de ser (igualmente) professora de Hip-hop, é uma das bailarinas que podemos ver em cena. –“A Fátima é uma bailarina Argentina que tivemos o privilégio de receber na nossa escola de dança. É uma verdadeira inspiração para toda a escola e para os nossos alunos, não só pelo seu talento e percurso artístico, mas também pela sua humildade, dedicação e enorme paixão pela dança”, diz Carolina.
É um espetáculo que nos enche pelas surpresas onde, entre vários segmentos de dança, podemos ver e ouvir Inês Paulino e Afonso Silva a dividir um monólogo escrito pela primeira: “Eu ainda sou suficiente”, que traduz de forma precisa o propósito da mensagem do espetáculo.
Outra das surpresas, obrigatória de desvendar, é o facto de Carolina dirigir a própria mãe, Luísa Moreira. – “Coreografar a minha mãe foi mesmo algo glorioso. Ela foi sempre uma pessoa que me apoiou imenso na dança, sempre me disse que eu era capaz e que devia confiar em mim. E por isso foi muito especial, quase um momento invertido, ser agora eu a apoiá-la, a acreditar nela e a guiá-la enquanto dançava. Foi um desafio super giro e super divertido e, ao mesmo tempo, muito bonito de viver, porque ela mostrou que tinha mesmo todas as capacidades para fazer esta coreografia. Tal como todas as minhas alunas da classe D, de contemporâneo adulto que, apesar de todas as responsabilidades que têm com os filhos, trabalho, etc., deram tudo para conseguir fazer parte deste desafio que lhes propus. No fim, foi mesmo incrível ver o resultado, a energia em palco e tantos aplausos no espetáculo. Foi uma classe que me encheu mesmo o coração”.
Cheias também, as salas ao longo de 3 dias (cerca de 1200) em cena puderam assistir a uma reflexão no corpo das dezenas de bailarinos sobre a ténue e desfocada linha que separa o sonho da utopia, onde as dúvidas e inseguranças aprisionam os corpos, as almas e as vontades. O último dia de apresentação, uma matinê na tarde de domingo foi, nas palavras da coreógrafa Carolina Moreira, “(…) uma oportunidade aos profissionais da restauração que, devido aos seus horários de trabalho, raramente conseguem assistir ao nosso espetáculo. Foi um pequeno gesto para que também eles pudessem desfrutar e acompanhar o trabalho que preparámos e apresentámos ao longo destes dias.”
Uma vez descido o pano, percebemos que “utopia” é apenas uma palavra. Para Carolina, fez-lhe sentir isso mesmo, de forma muito profunda: -“Ao longo do processo muitas vezes ouvimos que não somos capazes, que não vai dar, que é demasiado difícil ou que é só um sonho bonito, mas impossível. E há momentos em que essas vozes ficam dentro de nós e fazem-nos duvidar. Mas depois, chegamos aqui e percebemos o contrário. Percebemos que quando existe entrega, verdade, coragem e sobretudo, Amor pelo que fazemos, tudo começa a ganhar forma. O impossível começa a ficar mais pequeno e o sonho começa a tornar-se real à nossa frente. O que mais me tocou foi ver cada pessoa a ultrapassar as suas inseguranças, a crescer a cada ensaio e a brilhar em palco de uma forma tão verdadeira. Não foi sobre perfeição, foi sobre verdade, presença e coração. Para mim, este espetáculo provou mesmo que “utopia” só uma palavra porque, quando acreditamos de verdade e caminhamos juntas, o sonho deixa de ser só sonho e passa a ser vida.”
Foi desta “vida” que “beberam” mais de mil espectadores, num espetáculo com mais de meia centena de artistas, com um cenário superlativo face às expetativas locais e dirigido de forma, pelo menos, emocionante.
Convidamos o leitor a seguir a companhia nas suas redes sociais e, residindo em Almeirim ou nas imediações, visitar a escola, ver como professores e alunos entregam o seu coração e, ao mesmo tempo que se inscreve na escola, pressiona a mesma a repor o espetáculo.
“Utopia” pode ser só uma palavra, mas a paixão, jamais.
João Rosa Luz





