ER –A sua entrada na Santa Casa da Misericórdia de Santarém teceu o seu destino?
ZS – Tenho muito orgulho em dizer que sou um “exilado” e entrei na Santa Casa quando tinha 8 anos. Foi a 7 de Novembro de 1949 e isto por causa da crise que estava instalada em todo o mundo devido à 2ª Guerra Mundial. Os meus pais eram muito pobres e tive a sorte de ser entregue a uma grande academia de Santarém que é a Misericórdia e que fez de mim um homem. Saí a 15 de Junho de 1961.Ao ser lá criado, aos 12 anos de idade tive o meu primeiro emprego num estabelecimento de tratores na Augusto Sousa Barbosa, Lda. Depois trabalhei a arte de serralharia e aos 14 anos fui convidado pela D. Berta para colaborar na secretaria do Hospital de Jesus Cristo (SCM). Como era um jovem responsável, aos 15 fui funcionário da câmara mas aos 23 anos, saí para me estabelecer por conta própria: um atelier de desenho como desenhador projetista até 2003. Tive a sorte de encontrar os engenheiros e os gabinetes de arquitetura ligados às Belas Artes com quem colaborei com os meus desenhos e no levantamento de vários edifícios de Portugal: Arraiolos, Beja, Santarém, Coimbra, Montemor-o-Novo. Estive ligado ao desporto: fui diretor da União de Santarém, antes e depois do 25 de Abril, sou sócio do Benfica (Medalha de Ouro), fui jogador de futebol na União Desportiva Operária e de Futebol de Salão durante 40 anos, pratiquei atletismo e ciclismo. Mas talvez o mais importante, porque criado num asilo, dediquei-me à solidariedade social. Assisti à Sopa dos Pobres que deu origem ao Centro Social e Interparoquial, fui 1º presidente da Associação de Pais da Escola do Colégio Andaluz, Presidente da Comissão de moradores do Bairro do Sacapeito, fui membro fundador do Festival de Gastronomia de Santarém, etc. E sabe o porque dou importância à solidariedade? Porque não me esqueci que, quando era menino, alguém me ajudou. E quando comecei a ganhar dinheiro, ainda menino, sustentava os meus pais cá fora. A pobreza era muito grande e eu ajudei-os até ao seu falecimento.

ER – E a política?
ZS – No Verão Quente de 75, disponibilizei-me para colaborar com os Capitães de Abril na Escola Prática de Cavalaria, fui fundador do Partido Socialista onde permaneci militante até ao ano 2009; fui membro da Assembleia Municipal de Santarém e presidente da Junta de Freguesia de Marvila. E agora vou contar uma história: é que na campanha das autárquicas do Ladislau Botas, andei no carro com o megafone do Salgueiro Maia que tinha sido usado na rendição do Marcelo Caetano. Isso até foi falado na Assembleia da República e o José Niza confirmou. Participei nas campanhas de Mário Soares, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Ladislau Botas, Madeira Lopes e Moita Flores. Aí, por causa do Moita Flores e do caso do WShopping que está ilegal não me podiam ver no PS e eu saí. Não devo favores a ninguém; só respeito e consideração a quem merece. Até que o Moita Flores assim que chegou cá, quis logo saber quem eu era.

ER – Houve quem o apelidasse de “socialista inconformado”. Ou é apenas um espírito livre?
ZS – Sou uma pessoa livre porque lá por ser do Partido Socialista não tinha de votar no PS. E digo-lhe porquê? Porque a maior parte das vezes era Lisboa quem determinava quem era o candidato a concorrer por Santarém e no sítio próprio, perguntava se não havia cá pessoas capazes e com qualificações para escolher. Não que eu não gostasse das pessoas; não tem é de ser Lisboa a escolher. Repare que nós até podíamos escolher o mesmo. Mas isso tem de partir daqui. Mas isso de política está muito mal. Veja o caso das subvenções vitalícias…cada um sabe de si e eles é que sabem mas digo-lhe uma coisa: estamos numa falsa democracia; antigamente as pessoas falavam e iam presas, hoje ninguém é preso mas no dia seguinte é despedido. O governo muda e as pessoas têm de mudar todas? Porquê? Escolhem-se os amigos? Isso era antigamente! È bom, deixa-se estar, seja de que partido for.

ER – Foi por isso que saiu em defesa da Manuela Ferreira Leite?
ZS – Ora cá está. Eu alinho, com quem quer que seja, seja de que partido for, desde que tenha uma atitude responsável. O partido que perde as eleições, vai logo para a oposição. Porquê? Eu fiz parte de uma assembleia municipal e um dia sou chamado ao partido socialista porque aprovei uma proposta já não me lembro se era da CDU ou do PSD. Também lhes perguntei quem, dos senhores que ali estavam, tinha ido à reunião preparatória da Reunião Camarária… Eu estava na assembleia para representar a cidade, se o PS não tem propostas à altura, eu aprovei aquela que podia tirar Santarém do marasmo em que se encontrava.

ER – O Facto da sua vida pessoal…
ZS – Casei com Maria Adriana, funcionária da Câmara Municipal de Santarém e deste casamento nasceram 2 filhos, e hoje tenho 4 netos. Logo após a sua reforma, adoeceu gravemente com a doença de Parkinson e durante os 5 anos que esteve acamada, devido a uma queda, eu abdiquei de todas as minhas atividades para tratar e estar ao pé dela. Faleceu em 2012 no Hospital de Santarém. O meu neto Tiago deixa-me babado porque acaba este ano o mestrado em Engenharia Informática e já arranjou emprego. Todos os meus netos são o meu orgulho. E o meu António Miguel, que toda a gente trata por Miguel Zeferino, é treinador de râguebi.
ER – Algum dos seus netos quer seguir o caminho político do avô?
ZS – Não porque o avô aconselhou-os a não se meterem em política. A política é hoje grupinhos que querem deitar abaixo uns para eles subirem. E isso não.
ER- 40 anos depois da democracia, está desapontado com o rumo que tudo levou?
ZS – Estou. Porque alinhei com o meu amigo Salgueiro Maia com um objetivo e hoje isto é tudo o que se vê.

ER – Como conheceu o Salgueiro Maia?
ZS- Na altura comprei o apartamento onde hoje vivo e por cima ficava o Salgueiro Maia. E passei a ser vizinho, amigo e compadre, mês e meio após o 25 de Abril. Devido à sua maneira de estar e de ser, tornámo-nos casais amicíssimos de tal ordem que no Verão de 75, perguntou-me se eu colaborava com a EPC. E assim eu era chamado para certas operações durante a noite que a minha mulher nem sabia onde eu andava. Cheguei a ter uma metralhadora apontada às costas. Um dia, os militares tinham ido à carreira de tiro praticar e não entregaram as armas. Previa-se um assalto nessa noite. Eu tinha um walkie talkie e encontrávamo-nos atrás do Liceu que era um descampado na altura. Estou eu a falar ao Walkie talkie com o comandante quando aparece um carro. Ora nós tínhamos ordem para não sermos apanhados com os aparelhos. Quando nos mandam pôr as mãos ao alto, os walkie talkie voaram logo! Tive que pedir lanterna com a desculpa de estar aflito, para os encontrar. Mas nós fizemos férias juntos por todo o lado. Até fomos acampar para Marrocos. Depois, com o casal na Moçarria, eu e a minha mulher, o Salgueiro Maia e a Natércia, já nos últimos 2 anos da sua vida, mais uns casais, de 15 em 15 dias juntávamo-nos lá e falávamos sobre tudo. Lembro-me do que o Maia disse uma vez. “Vamos almoçar que eu tenho de dar de comer a este!” referindo-se ao cancro. E eu passei-me e desatei a gritar que ninguém sabia quem chegava primeiro e que tínhamos que viver um dia de cada vez. Desde aí que nunca mais falou na doença. Depois foi para Londres fazer tratamentos e eu fui lá e foi a última vez que o vi e saí de lá a chorar. O Maia regressou até num avião particular que o Mário Soares lhe arranjou para ele poder vir deitado. O Eng.º Martinho e a minha filha foram das últimas pessoas a vê-lo no Hospital Militar onde faleceu. Foi um grande orgulho ter conhecido este homem. Sabe que sempre que o Salgueiro Maia falava com altas patentes chamava sempre o vizinho de baixo. E eu dizia-lhe que era civil. Mas o Maia dizia: Mas eu contigo, sei com o que conto!

ER – Livraria Apolo, diz-lhe alguma coisa?
ZS – Manuel Alves Castelo…claro que diz! Era onde nos reuníamos antes e depois do 25 de Abril para debater princípios políticos. Mas tudo muito às escondidas. Antes do 25 de Abril eu era jogador de snoocker e íamos ao Central. Eu, o Chanã, o Alberto Filipe Batista e mais 2 ou 3 e onde nos encontrávamos para jogar até às 2 a manhã e depois aquilo enchia e havia quem dissesse.”cuidadinho com a conversa que estão aí os gajos da PIDE!” Eu sai da Câmara com 23 anos porque foram lá um dia uns inspetores para saber o que eu fazia e para dizer que eu não podia desenhar fora da câmara. Eu bem lhes dizia que o que fazia lá fora não tinha nada a ver com o trabalho na Câmara. O presidente da Câmara da altura também fez comentário que não foi apropriado e eu então, combinado com a minha mulher, demiti-me.

ER – Qual vai ser o caminho político deste país?
ZS – Eu nunca esperei que chegássemos a uma situação destas. Se houver várias listas a concorrer numa escola e se eu estiver numa que não ganhou eu posso juntar-me à outra derrotada e acabo por ganhar à lista vencedora. Foi isto o que aconteceu. Não há dúvida que o improvável acontece. Só espero que o Partido Socialista com a coligação que fez, saiba, governar como deve ser e que a oposição saiba ajudar quem está a governar porque, acima de tudo, somos todos portugueses. Temos de saber fazer poupanças. Não é viver faustosamente e depois, em tempos de crise, ficamos na miséria. Não. Não são os idosos com reformas de miséria que com 70 e 80 anos que ainda têm de pegar na enxada para ajudar os filhos! E a subvenção vitalícia? Se tiver que se alterar a Constituição, pois altere-se. É preciso acabar com a corrupção. Andam por aí à solta os corruptos! Haja justiça. E já que falo nela porque é que as notícias chegam primeiro aos jornais? Porque é que se faz o julgamento público antes do judicial? E muito cuidado que já se anda por aí a falar muito no Salazar! E eu não sei onde é que isto vai parar.
Teresa Azevedo e Sousa
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